
Obama e o teste da democracia americana
André Marenco*
O ciclo de primárias e caucuses do Partido Democrático americano foi finalmente concluído, com a vitória de Barak Obama, a ser confirmada ainda na Convenção partidária de Agosto. Mais de 37 milhões de eleitores participaram da disputa entre os candidatos democratas, número altamente expressivo, principalmente quando estamos acostumados a ouvir comentários sobre a "crise da democracia representativa", " a decadência dos partidos políticos", "a falta de interesse pela política". Quase desconhecido há seis meses, mesmo para os americanos, Obama derrotou a então favorita do establishment democrata, a ex-primeira dama e senadora por dois mandatos, Hillary Clinton. Como entender este fenômeno? De onde vem a força e o apelo de Barak Obama?
As eleições presidenciais norte-americanas tem apresentado longos ciclos de domínio democrata ou republicano. Os democratas predominaram dos anos 30 aos 60, com um pequeno intervalo no governo Eisenhower. Durante os anos 60, o conservador eleitorado democrata do Sul migrou para o lado republicano, como reação à afirmação dos direitos civis, patrocinada pelos governos democratas. Isto provocou uma mudança na relação de forças, inaugurando um longo ciclo de hegemonia republicana: das 10 eleições presidenciais americanas desde 1968, 7 foram vencidas pelos republicanos. Desde então, a dinâmica da disputa eleitoral tem sido pautada por um duplo movimento: republicanos deslocando-se cada vez mais à direita para garantir o voto dos ultra-conservadores religiosos; democratas, uma derrota após a outra, tentando parecer-se com republicanos para conquistar o voto dos eleitores mais moderados. A estratégia pragmática de Hillary Clinton constituia em repetir o mais do mesmo que vem sendo promovido (com limitado sucesso) pelos estrategistas democratas. Obama adotou um caminho diferente: atrair a enorme parcela do eleitorado americano, em especial de uma geração mais nova, e que tem se mantido indiferente à disputa eleitoral. As taxas de abstenção eleitoral nos Estados Unidos são muito elevadas. Em média, 50% dos cidadãos adultos abstem-se nas eleições presidenciais, proporção que chega a 70% nas eleições legislativas de midterm.
Os Estados Unidos são (perdão pelo lugar comum) uma terra de contrastes: primeiro país a promover eleições sem requisitos de renda ou propriedade para o exercício do voto (desde 1828), impediu por meio de leis segregacionistas estaduais ou da violência física que negros chegassem às urnas, até quarenta anos atrás. Neste contexto, a ascensão de Obama, apoiado em uma geração pós-políticas segregacionistas, completa o ciclo percorrido pelas instituições poliárquicas, que inicia pelo enfranchisement dos direitos civis e políticos e culmina com a quebra da última das barreiras raciais, a da Presidência.
A biografia de Barak Obama é agora bastante conhecida: negro, de pai queniano e muçulmano, tendo vivido até a adolescência fora dos EUA, formado em Ciência Política pela Universidade de Colúmbia e Direito por Harvard, com ingresso na política após trajetória de defesa dos direitos civis, é o emblema da mobilidade inter-geracional de e para um importante grupo de negros americanos. Há pouco mais de uma década, Samuel Huntington, um cientista político conhecido por suas afinidades conservadoras, publicou seu livro O Choque de Civilizações em que, entre outras hipóteses, afirmava que democracia constituia um patrimônio ocidental, com DNA protestante e anglo-saxão. Alguns anos mais tarde, Huntington voltaria ao tema afirmando que os EUA estariam vivendo uma crise de identidade e que a solução seria adotar políticas restritivas à imigração, como forma de preservar a candidez de seus valores culturais. Tapa de luva da fortuna, que a revitalização da democracia americana e as apostas dos eleitores para reverter a crise econômica e oferecer uma saída para o puzzle iraquiano sejam confiadas a um negro de nome e família muçulmanos, sem que estas credenciais até o momento pareçam comprometer decisivamente suas probabilidades de conquistar a Presidência. Ponto para a democracia.
Publicado no Jornal da Universidade, UFRGS, vol.11, n. 109, 2008.
